Por que dizemos que o Eterno nos ordenou luz de Shabat?

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oil lampPor que dizemos que, na bênção, que o Eterno nos ordenou acender luz de Shabat, se na Torah isso jamais é dito? Isso não é colocar palavras na boca do Eterno? Não constitui acréscimo à Torah?

Essa é uma excelente pergunta, e que realmente angustia aqueles que estão chegando ao Judaísmo de coração sincero, e que não cresceram habituados com tais coisas.

Afinal, para quem deixou outra religião onde se sentiu enganado por palavras de homens, há um grande medo, ou incômodo, com coisas que podem ser percebidas como acréscimos de homens. Tais coisas costumam acender a luz amarela. Especialmente porque muitas dessas pessoas foram ensinadas, pelo antissemitismo neo-testamentário, a desconfiar de tudo que vem dos judeus.

Na realidade, resposta a essa questão é bem interessante, porque ela ilustra as duas maneiras como o Eterno age nas Escrituras.

A Maneira de Ação do Eterno

Há momentos em que o Eterno age por revelação. Ele faz conhecer diretamente a sua palavra ao profeta, e o resultado é que temos a expressão: “E falou o Eterno” – uma das expressões mais comuns na Torah.

Outra forma do Eterno agir é por representatividade. Isto é, o Eterno autoriza alguém, afirmando que o povo de Israel deve dar ouvidos a tal pessoa ou instituição. Este segundo precisa de uma autorização clara na Torah.

Um deles foi Yehoshua’ (Josué), numa linha de shofetim (juízes) condutores do povo que perdurou até Shemuel (Samuel):

“E Yehoshua’ Ben Nun, foi cheio do sopro de sabedoria, porquanto Moshe tinha posto sobre ele as suas mãos; assim os filhos de Israel lhe deram ouvidos, e fizeram como YHWH ordenara a Moshe.” (Devarim/Deuteronômio 34:9)

Posteriormente, essa condução culminou na monarquia davídica. O objetivo era uma condução mais político-administrativa do povo.

A segunda dessas instituições foi a Corte Mosaica, o chamado Bet Din haGadol (Suprema Corte), ou Sanhedrin (Sinédrio), que se reunia junto ao Santuário, e deliberava sobre a observância da Torah:

“E disse YHWH a Moshe: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes serem anciãos do povo e seus oficiais; e os trarás perante a tenda da congregação, e ali estejam contigo. Então Eu descerei e ali falarei contigo, e tirarei do espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que tu não a leves sozinho… Então YHWH desceu na nuvem, e lhe falou; e, tirando do espírito, que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; e aconteceu que, quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas depois nunca mais.” (Bamidbar/Números 11:16-17,25)

A razão pela qual a Corte profetizou apenas uma vez foi para que o povo pudesse testemunhar que o sopro de sabedoria que estava sobre Moshe (Moisés) fora de fato transferido para eles.

Mas, depois disso, não mais profetizou, pois o objetivo da Corte Mosaica não era ser uma organização profética, mas sim uma organização jurídica.

Sobre ela, o Eterno determina:

“Conforme ao mandado da Torah que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda. O homem, pois, que se houver soberbamente, não dando ouvidos ao kohen, que está ali para servir a YHWH teu Elohim, nem ao juiz, esse homem morrerá; e tirarás o mal de Israel.” (Devarim/Deuteronômio 17:11-12)

Observe que a Corte Mosaica ali estava para servir ao Eterno. Por essa razão era detentora do sopro de sabedoria. Quando a Corte falava, não se deveria dela desviar nem para a esquerda nem para a direita.

Em suma, a Corte falava pelo Eterno. Não de forma profética, mas sim por representatividade, pois foram homens escolhidos para estarem diante do Eterno e cumprindo tal função.

Assim como o kohen (sacerdote) estava autorizado a atuar em nome do Eterno para suas funções específicas, também a Corte Mosaica tinha a mesma autorização, cada qual dentro das suas funções.

Portanto, não é exagero dizer que alguma coisa ordenada por alguém que o Eterno deu autorização para agir seja como algo ordenado pelo próprio Eterno.

Detalhamento da Bênção

Na Mishneh Torah, que é uma compilação das deliberações da Corte Mosaica, Rambam lida justamente com essa questão:

“Onde Ele nos ordenou? Na Torah, que afirma: “Conforme ao juízo que te disserem, farás.” [Dt. 17:11 – Baseado nesse conceito, a bênção] é interpretada da seguinte forma: ‘Que nos santificaste com os Teus mandamentos e nos ordenaste a darmos ouvidos a estes [juízes] que nos ordenaram acendermos as velas de Hanukah ou lermos a Meguilah.’ O mesmo se aplica acerca de todas as miswot segundo as palavras dos escrivães [da Corte Mosaica].” (Mishneh Torah – Sefer Ahavah – Hilkhot Berakhot 11:3)

Ou seja, Rambam está dizendo que a miswah da Torah na realidade é a de ouvir à Corte Mosaica, e que ela por sua vez estabeleceu a prática do acendimento das luzes de Shabat. O que é perfeitamente comprovável tanto pela Torah quanto historicamente.

Infelizmente, os que se opõem à prática judaica normalmente supõem que os judeus estejam colocando palavras na boca do Eterno de forma leviana, e como se pode ver, isso está longe de ser o caso.

Na realidade, a explicação é simples: O sentido da bênção pode ser visto com clareza no texto da Mishneh Torah, a saber:

O Eterno estabeleceu shofetim (juízes). O Eterno os autorizou pelo sopro de sabedoria e a imposição de mãos de Moshe (Moisés). O Eterno orientou o povo a não se desviar das deliberações dessa Corte nem para a esquerda nem para a direita.

Ou seja, quando a Corte Mosaica age dentro da Torah – e existe uma série de condições para que se considere isso – então as suas deliberações são, por representatividade, deliberações do próprio Eterno

A miswah (mandamento) é de dar ouvidos à Corte. Por uma razão simplesmente de brevidade – afinal o texto da bênção é um texto litúrgico, ao invés de dizer “que ordenou que déssemos ouvidos à Corte Mosaica que determinou o acendimento da luz de Shabat”, pois isso ficaria grande demais a bênção é mais objetiva: “que nos ordenou acendermos a luz de Shabat.”

Não se deve supor, conforme visto, que a brevidade nas palavras litúrgicas indiquem que os judeus pensem que, ou insinuem que, o Eterno revelou essa miswah por meio de profecia. Isso seria absurdo! Pelo contrário, há não apenas uma ciência, como também uma diferenciação entre as miswot recebidas por intermédio da Corte Mosaica, e as miswot recebidos de forma direta, por revelação.

Porém, é miswah da Torah dar ouvidos às deliberações da Corte Mosaica, não se desviando nem para a direita nem para a esquerda. E foi o próprio Eterno quem determinou tal coisa. Logo, na base de tudo, conforme explica Rambam, está uma miswah do Eterno!

Para maiores informações sobre a autoridade da Corte Mosaica, bem como as provas bíblicas de sua autoridade (inclusive para estabelecer miswot), sugiro ao leitor as palestras da série “Halakha, Torah e Corte Mosaica”.

Nessa palestra, inclusive, é explicado em detalhes como e porque os judeus diferenciam entre as instruções dadas pela Corte Mosaica, e as instruções extraídas do próprio texto da Torah.

O Motivo da Miswah

Alguém poderia se perguntar ainda: Por que a Corte Mosaica estabeleceu o acendimento das luzes de Shabat?

A resposta está longe de ser por motivações místicas, e tem sua raiz na própria natureza do Shabat.

Yeshayahu haNavi (o profeta Isaías) nos diz:

“Se desviares o teu pé do Shabat, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia de YHWH, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras.” (Yeshayahu/Isaías 58:13)

O Shabat é um momento deleitoso, onde nos reunimos em família para nos alegrarmos perante o Criador, e termos momentos agradáveis, comendo, bebendo, cantando e falando acerca da Torah.

Nos tempos antigos, as pessoas não tinham acesso à luz elétrica. Se não houvesse luz para a noite de Shabat, seria impossível que elas pudessem se sentar e se alegrar naquela ocasião, para santificarem a entrada do Shabat.

Por essa razão, a Corte Mosaica instituiu o acendimento das luzes de Shabat, que na antiguidade geralmente eram lâmpadas a óleo, antes do início do Shabat, para não violar a miswah de não acender fogo no Shabat (vide Ex. 35:3).

O acendimento anterior ao Shabat proporcionaria às famílias que pudessem ter o ambiente iluminado para poderem comer, beber, e se alegrar nesse dia tão festivo.

Resumindo: Tanto a bênção quanto a miswah em si têm sua origem, estabelecimento e propósito em preceitos puramente bíblicos.

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