Por que existem tantas vertentes do Judaísmo? Qual é a verdadeira?

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Por que existem tantas vertentes do Judaísmo? Qual é a verdadeira? Por que, às vezes, cada uma faz uma coisa? Com tantas vozes distintas, como saber?

Essa pergunta, na realidade, demanda uma resposta em várias partes. Abordaremos aqui a questão em três partes.

Duas delas dizem respeito à pergunta propriamente dita: Como era o sistema religioso do povo de Israel; o que aconteceu para que ficássemos nessa situação. Já a terceira diz respeito à natureza da pergunta.


Israel, na Antiguidade

A Torah fala de cinco categorias de pessoas que o Eterno utilizaria para conduzir o seu povo:

Kohanim (Sacerdotes) e Lewi’im (Levitas): Responsáveis pelo culto no Santuário, por julgarem o povo e também pelo ensino da Torah. Também poderiam consultar o Eterno caso necessário.

Nevi’im (Profetas): Recebiam mensagens do Eterno, e também em algumas ocasiões se comunicavam com Ele através de visões e sonhos.

Zekanim (Anciãos): Os setenta escolhidos por Moshe (Moisés) para conduzirem o povo na instrução de como andarem perante o Eterno

Shofetim (Juízes): Julgavam o povo e tomavam decisões acerca da forma de aplicação da Torah. Geralmente eram compostos por lewi’im (levitas) e zekanim (anciãos).

Reis (Melakhim): Já prevendo que o povo escolheria um rei, o Eterno determina que esse líder político deveria ajudar a conduzir o povo nos caminhos dEle.

Referências: Ex. 30:30, 38:21; Nm. 11:17, 12:6, 27:21; Dt. 16:18, 17:1-20, 33:8-10;

Observa-se, portanto, que havia uma abundância de canais de comunicação, e formas de conduzir o povo.

O próprio Tanakh afirma que, quando esses canais estão ausentes, o caos impera:

“Ora, tinha este homem, Mikha, uma casa de deuses; e fez um efod e terafim, e consagrou um de seus filhos, que lhe serviu de kohen. Naquelas dias não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia bem aos seus olhos.” (Shofetim/Juízes 17:5-6)

Um dos problemas de Israel pode ser visto exatamente acima. Os terafim: estátuas de ídolos de deuses regionais.

A idolatria sempre foi um dos principais problemas de Israel. Por essa razão, são tão terríveis os programas conduzidos por grupos religiosos para converter judeus, mesmo que sob o pretexto de lhes ensinar uma forma mais “completa” de Judaísmo (que, na realidade, de Judaísmo não tem nada).


A Consequência do Pecado

A idolatria teve diversas consequências. A mais conhecida delas é o exílio do povo de Israel.

Porém, essa não foi a única consequência. Outra, muito grave, pode ser vista nas passagens abaixo:

“Eis que vêm dias, diz o Adonai YHWH, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras de YHWH. E irão errantes de um mar até outro mar, e do norte até ao oriente; correrão por toda a parte, buscando a palavra de YHWH, mas não a acharão.” (Amos 8:11-12)

Observa-se pelo relato de Amos haNavi (o profeta Amós) que chegaria o tempo em que a terra ficaria sem ouvir a palavra do Eterno.

E, pode-se observar, que isso ocorreu gradativamente. A destruição do Templo, a destituição da Casa de Dawid (Davi), a perseguição e morte dos anciãos e dos juízes de Israel. Até o ponto de nada mais restar.

“E te restituirei os teus juízes, como foram dantes; e os teus conselheiros, como antigamente; e então te chamarão cidade de justiça, cidade fiel. Siyon será remida com juízo, e os que voltam para ela com justiça.” (Yeshayahu/Isaías 1:26-27)

Aqui se observa uma promessa a Yeshayahu (Isaías) de que os juízes de Israel serão restaurados, e que Siyon (Sião) será novamente uma cidade chamada de cidade justa.

“Pois os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem coluna, e sem efod ou terafim. Depois tornarão os filhos de Israel, e buscarão a YHWH, seu Elohim, e a Dawid, seu rei; e com temor chegarão nos últimos dias a YHWH, e à sua bondade.” (Hoshe’a/Oséias 3:4-5)

Hoshe’a (Oséias) é o que mais explicitamente afirma que ficaríamos sem absolutamente nada, por um longo período.

Observe como no final, Hoshe’a (Oséias) faz referência aos terafim, que o povo de Israel costumava fazer.

Aguardamos um tempo em que possamos fazer como Yoshiyahu (Josias):

“Além disso, os adivinhos, os feiticeiros, os terafim, os ídolos e todas abominações que se viam na terra de Yehudah e em Yerushalayim, Yoshiyahu os extirpou, para confirmar as palavras da Torah, que estavam escritas no livro que Hilkiyahu o kohen achara na Casa de YHWH.” (Melakhim Bet/2 Reis 23:24)

Muitos esperam um líder político forte, um legítimo herdeiro da dinastia davídica, que conduziria Israel a deixar a idolatria.

Fato é que o retorno à revelação, e aos canais abertos com o Eterno que poderiam esclarecer todas as coisas, só ocorrerão após sermos capazes de abandonar a idolatria e de nos voltarmos a Ele.


Nosso Estado Atual

Isso nos trás à situação atual. Por que há tantos grupos, e cada um possui práticas diferentes?

Bem, primeiro é preciso compreender que, mesmo havendo muitas diferenças, é possível olhar para todos e extrair um denominador comum. Há práticas, pensamentos e maneiras de agir que são comuns à maioria dos grupos.

E, no cerne esse denominador comum, está o desejo de cumprir a Torah.

A própria Torah nos diz, sobre o tempo da diáspora:

“E será que, sobrevindo-te todas estas coisas, a bênção ou a maldição, que tenho posto diante de ti, e te recordares delas entre todas as nações, para onde te lançar YHWH teu Elohim, e te converteres a YHWH teu Elohim, e deres ouvidos à sua voz, conforme a tudo o que Eu te ordeno hoje, tu e teus filhos, com todo o teu coração, e com toda a tua alma, então YHWH teu Elohim te fará voltar do teu cativeiro, e se compadecerá de ti, e tornará a ajuntar-te dentre todas as nações entre as quais te espalhou YHWH teu Elohim.” (Devarim/Deuteronômio 30:1-3)

O Eterno sabe que, na diáspora, e sem os canais de comunicação que Ele havia nos proporcionado, não há como termos 100% de certeza do que devemos fazer. Essa é a principal razão pela qual vários grupos tentam, cada qual segundo o seu entendimento, se reaproximar do Criador.


O que Fazer?

A boa notícia é que, pela Torah, o principal elemento que nos levará ao fim da Diáspora não é a perfeição no saber exatamente o que fazer, pois tal perfeição só acontecerá na Gueulah (Redenção).

O que a Torah exige de nós é que nos voltemos para o Criador, buscando-O de todo o nosso coração, segundo o nosso entendimento.

Devemos lembrar que o coração é, para a cultura semita, o cerne dos planos e dos pensamentos, e não simplesmente responsável pelas emoções, como ocorre na cultura ocidental. Observe o exemplo:

“A minha boca falará de sabedoria, e a meditação do meu coração será de entendimento.” (Tehilim/Salmos 49:4)

Ou seja, o que você deve fazer?

Meditar na Torah dia e noite, como diz o salmista, e procurar fazer o melhor que puder, dentro do seu entendimento. Sua sinceridade de coração na sua busca pelo Eterno é o principal elemento.

Não existe grupo perfeito, ou que tenha todas as verdades. Acreditar nisso seria, automaticamente, negar o efeito das profecias dadas pelo Eterno acerca do nosso estado atual.

Em sendo assim, você deve buscar se aproximar daquilo que mais faz sentido, dentro, claro, de um grupo que tenha como parâmetro fundamental a observância da totalidade da Torah, lembrando que mesmo assim não terá uma experiência perfeita.

É preciso se recordar que, acima de tudo, mesmo com pluralidade de práticas, deve prevalecer o sentimento de ser parte de um todo. O povo judeu se reconhece, mesmo sabendo das diferenças de prática que existem entre eles.

Lembremos do salmo, que diz:

“Vede: como é bom, como é agradável habitar todos juntos, como irmãos.” (Tehilim/Salmos 133:1)

É muito comum que pessoas vindas de religiões exclusivistas, que costumam alertar contra “heresias de demônios”, tenham muita dificuldade de conviver com diferenças e com pluralidade de pensamentos, e que sejam até mesmo passionais em seus argumentos.

Deve-se entender, além de toda a situação acima descrita, que a unidade do povo judeu deve sempre prevalecer, mesmo que diferentes grupos tenham interpretações diferentes sobre como viver a Torah da melhor forma possível.

No fim das contas, todos somos um povo, e no momento nenhum de nós tem condições de acertar totalmente, até que venha a Gueulah (Redenção). O importante é nos esforçarmos ao máximo, e nos mantermos unidos acima de tudo.

Isto nos leva ao último ponto. Muitas pessoas que vêm de outros backgrounds religiosos ficam obcecadas por encontrarem a perfeição quanto ao que fazer, e no que acreditar, por dois motivos: O primeiro é por muitas vezes sentir que suas religiões anteriores mentiram para elas. O segundo é por uma visão de que o errar equivale a servir demônios (por mais que tais entidades não existam no Tanakh) ou ser lançado no lago de fogo, algo que o Tanakh também não menciona.

Porém, a Torah nos diz:

“E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual YHWH teu Elohim te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não.” (Devarim/Deuteronômio 8:2)

Precisamos aceitar que, na circunstância atual, não conseguiremos ser perfeitos. Não conseguiremos ter toda a revelação, nem mesmo para sabermos com exatidão tudo aquilo que devemos fazer.

Mas, isso não nos exime de tentarmos. O grande teste da Torah não é com relação à nossa capacidade de sabermos todas as coisas.

O grande teste da Torah se desenrola em nossos corações, para saber se, com o melhor das nossas habilidades, com o máximo de nossa capacidade, e com a totalidade das intenções de nossos corações.

Cada grupo, cada comunidade, tem uma ideia de como isso se desdobra. O mais importante, todavia, é que essa ideia esteja alinhada com aquilo que, em sinceridade, observamos como sendo a melhor forma de nos aproximarmos do ideal que Ele deseja de nós.

Mas, aqueles que desejam de fato se unirem ao povo judeu, devem ter mais do que uma compreensão sobre a situação atual, sobre a punição do exílio, e sobre a importância da unidade.

Aquele que deseja seguir este caminho deve aceitar sobre si essa realidade, e deixar de lado as aspirações por trás da pergunta acima, e ocupar-se de objetivos ainda maiores. Tudo em prol do fim definitivo da Galut (Exílio) e do princípio da Gueulah (Redenção).

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