Jogos e apostas são pecado?

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jogoApostar em loteria, fazer rifa, jogar em bingo, como as Escrituras vêem essas coisas?

I – O Ato de Jogar

O ato de apostar em esportes, ou algum outro tipo jogo é prática quase tão antiga quanto a humanidade. Ainda assim, não se vê qualquer tipo de proibição nas Escrituras.

Muito pelo contrário, o próprio ato de jogar a sorte para conhecer a vontade do Eterno era algo extremamente comum, e documentado em diversos versículos bíblicos. Por exemplo:

“E Aharon lançará sortes sobre os dois bodes; uma por ADONAY, e a outra pelo bode emissário.” (Wayiqrá/Levítico 16:8)

“E deitaram sortes acerca da guarda igualmente, assim o pequeno como o grande, o mestre juntamente com o discípulo.” (Divrê haYamim Alef/1 Crônicas 25:8)

Essa prática bíblica será tratada à parte, noutra postagem.

Em sendo assim, não há proibições quanto a apostar em loterias, raspadinhas, corridas de cavalo, bingo ou qualquer outro tipo de jogo.

O autor deste artigo não se agrada muito da prática. Porém, é preciso separar o que não agrada a alguém daquilo que é proibido por força das Escrituras. E, neste caso, não há proibição.

II – Ressalvas

Porém, como tudo na vida, uma prática inócua pode se tornar uma prática inadequada, se a pessoa comete exageros. Conheçamos, portanto, aqui os limites para essa prática:

1) Legalidade e Moralidade

É fundamental que aquele que faz uma aposta o faça dentro da legalidade. Isto é, recorra a loterias licenciadas, ou pequenos jogos nos quais haja boa fé, como, por exemplo, apostar entre amigos, ou participar de uma rifa.

Quando feito fora da legalidade, corre-se o risco de estar financiando grupos criminosos. Por exemplo, o jogo do bicho no Rio de Janeiro ficou por muito tempo nas mãos do tráfico de drogas.

Nesse caso, quem participa mesmo assim incorre na seguinte proibição: “Não permanecerás inativo diante do sangue do teu próximo.” (Wayiqrá/Levítico 19:16)

É importante lembrar do salmista, que diz: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (Tehilim/Salmos 1:1)

É importante também se recordar que nem tudo que é legal aos olhos do governo o é aos olhos da Torá, e vice-versa. Se a pessoa souber de fraude que se utiliza do jogo, então também tem o dever e a responsabilidade moral perante o Eterno de se abster.

2) Não buscar vantagem

Outra proibição ocorre se a pessoa já tem conhecimento prévio de que será favorecida no jogo. Mesmo que não haja trapaça no jogo em si, não é lícito, por exemplo, se aproveitar da fragilidade do outro para obter vantagem.

Por exemplo, uma pessoa que joga poker, e sabe que o outro é iniciante, não deve ficar em silêncio e se valer da ignorância alheia para obter vantagem, pois a Torá diz:

“Não amaldiçoarás ao surdo, nem porás tropeço diante do cego; mas temerás a teu Elohim. Eu sou ADONAY.” (Wayiqrá/Levítico 19:14)

Essa passagem é entendida exatamente dessa forma. Sobre isso, Rambam (Maimônides) diz:

“Uma pessoa que não sabe certas coisas também deve ser considerada ‘cega’ – desconhecedora daqueles assuntos.” (Sefer haMiswot – Mandamento Negativo 299)

3) Não incorrer em vício

Vícios são perigosos, pois causam destruição, e levam à escravidão.

Quando a Torá fala sobre o governante de Israel, diz: “Porém ele não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos; pois ADONAY vos tem dito: Nunca mais voltareis por este caminho.” (Debarim/Deuteronômio 17:16)

Evidentemente, o objetivo aqui não era proibir os filhos de Israel a fazerem um cruzeiro pelo rio Nilo, mas sim de retornar à escravidão. O Eterno criou o ser humano para a liberdade, e não para se escravizar no vício.

Sendo assim, uma pessoa viciada em jogo deve se abster de jogar, da mesma forma que um alcoólatra deve se abster de beber, ou que um glutão deve se abster de comer coisas destrutivas.

4) Não se recomenda fazer disso profissão

Embora não haja uma proibição da Torá quanto a isso, a Corte Mosaica (Sanhedrin) da antiguidade impedia que pessoas que fazem do jogo a sua profissão servissem como testemunhas ou como juízes.

Sobre isso, a Guemará diz:

“Esses são inelegíveis [para serem testemunhas ou juízes]: Um apostador de dados… Se eles não têm outra ocupação além dessa. Mas se tem outros meios de vida, são elegíveis.” (b. Sanhedrin 24b)

A lógica é que essas pessoas não contribuíam para a sociedade, e a forma de ganho delas era semelhante à usura.

Claro, como em todo tema complexo, há várias opiniões sobre o que de fato constitui o limite dessa proibição. No entanto, certamente não se aplica à grande maioria dos que lerão este material. Portanto, é pouco útil adentrar tais pormenores.

III – Conclusão

Como se poder perceber, o jogo é mais uma das práticas que são lícitas, mas sobre as quais se deve ter cautela, para não cair no erro.

O autor deste artigo não é favorável à prática, mas também não acha que há proveito em tentar se abster de tudo o que pode ser perigoso, pois o radicalismo também é igualmente perigoso.

Não é porque há pessoas que usam uma faca para matar que devemos proibi-la na cozinha. Nem é porque há loucos que atropelam pessoas que devemos por isso abolir o carro e andar apenas a cavalo.

Antes, devemos sempre alinhar os nossos corações à vontade do Criador, para que exerçamos domínio próprio, pois até as coisas mais inócuas podem se tornar problemáticas se feitas em excesso.