As bênçãos no Judaísmo

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orvalho1Pergunta: Por que o Judaísmo tem tantas bênçãos, para tantas coisas? Isso não é excessivo? Precisamos mesmo seguir o texto das bênçãos? Há utilidade numa bênção mecânica?

Excelente pergunta! Comecemos pela última parte.

I – Bênção, Padronização e Intenção

Bênção não é mantra. Nossos sábios disseram:

“Da intenção do coração depende a validade das palavras.” (b. Berakhot 15a)

Ou seja, uma bênção só é válida se for recitada com a intenção adequada.

De fato, a halakhá diz que há um padrão a ser seguido:

“O texto de todas as bênçãos foi ordenado por `Ezra [Esdras] e sua Corte. Não é adequado alterá-lo, acrescentar a ele, ou remover dele.” (Mishnê Torá – Sefer Ahavá – Hilkhot Berakhot 1:5)

A primeira coisa a entender é que a relação aqui não é de pecado/não-pecado. Ninguém está dizendo que quem sai do padrão das bênçãos será torturado, punido, é maldito ou qualquer coisa descabida do gênero. Apenas, não é adequado.

Mas a questão é: Por que isso ocorre?

A razão pela qual foi estabelecido um padrão para as bênçãos se explica em por duas razões. A primeira é que o povo, nos tempos de `Ezra (Esdras) tinha dificuldades com o hebraico, ou mesmo com recordar a fé de seus pais, e precisava de um guia mais passo-a-passo do que deveria fazer. Razão pela qual a Corte Mosaica dos tempos de `Ezra instituiu tais bênçãos, bem como praticamente todo o restante da liturgia diária.

Se não houvesse um formato sugerido, as pessoas simplesmente iam se perder, e gradativamente iriam deixar de fazer.

A segunda razão pela qual as bênçãos foram instituídas é para fins comunitários. Bênçãos padronizadas poderiam ser facilmente reconhecidas pela comunidade, facilitando que todos pudessem imediatamente compreender o propósito, e até mesmo fazer as bênçãos de maneira comunitária.

Imagine o leitor a confusão que haveria se, após o retorno do exílio, com o povo ainda muito repleto de costumes assimilados, cada um resolvesse falar o que lhe conviesse. Uns concordariam com o texto dito, outros poderiam discordar, uns ainda não entenderiam o que estava sendo dito.

Para tornar as coisas mais simples, a Corte Mosaica reuniu os textos mais belos e significativos, e compôs as bênçãos padronizadas.

Mas, observe o leitor, que a halakhá deixa claro que uma bênção dita no formato padronizado, mas sem intenção, é inválida. Já uma bênção dita com a intenção adequada, mesmo que feita fora do padrão, continua sendo válida. Observe:

“Quem muda o texto cumpre a sua obrigação mesmo assim – uma vez que mencionou o Nome de ADONAY, Sua soberania, e o assunto da bênção – mesmo que o tenha feito em linguagem comum.” (ibid 1:6b)

II – Razões Bíblicas

Tendo esclarecido esses dois pontos fundamentais, é importante em seguida compreender o papel das bênçãos no Judaísmo.

A próxima coisa a compreender é que um dos objetivos do Judaísmo ter muitas bênçãos.

Um desses motivos está expresso no próprio Tanakh:

“Bendirei a ADONAY em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca.” (Tehilim/Salmos 34:2)

“Cada dia Te bendirei, e louvarei o teu nome pelos séculos dos séculos.” (Tehilim/Salmos 145:2)

A prática de bendizer o Eterno a todo tempo, e diariamente, é mencionada pelos salmos. Ter as bênçãos estabelecidas para tal finalidade auxilia nesse objetivo.

Outro motivo é para relatar a todo tempo as obras da criação. Essa também é uma prática bíblica:

“para fazer ouvir a voz de louvor, e contar todas as tuas maravilhas.” (Tehilim/Salmos 26:7)

“Mas para mim, bom é aproximar-me de Elohim; ponho a minha confiança em ADONAY Elohim, para anunciar todas as suas obras.” (Tehilim/Salmos 73:28)

Quando bendizemos o Eterno e mencionamos a razão, estamos declarando suas obras continuamente. O que não apenas anuncia a maravilha do Seu Nome, como também fortalece a nossa própria fé.

III – Três Tipos de Bênçãos

Para compreender as demais razões, é importante, todavia, entender que nem todas as bênçãos no Judaísmo são iguais. Temos, na realidade, uma divisão em três tipos, conforme pode ser visto abaixo:

“Todas as bênçãos podem assim ser divididas em três categorias:

  • Bênçãos sobre benefícios
  • Bênçãos sobre mandamentos
  • Bênçãos recitadas como expressões de louvor e agradecimento ao
    Eterno e como formas de petição, para que possamos sempre nos lembrarmos do Criador e temê-Lo.” (Mishnê Torá – Sefer Ahavá – Hilkhot Berakhot 1:4)

Compreendamos portanto cada categoria.

IV – Bênçãos sobre Benefícios

A bênção sobre benefícios significa bendizer o nome do Eterno ao tomar parte de algum tipo de benefício.

Por exemplo: ao comer algum tipo de alimento, ou ao cheirar a fragrância de uma árvore aromática, ou de uma flor.

A lógica por trás de recitarmos uma bênção antes de tais coisas é simples de entender:

“Agora, pois, se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra.” (Shemot/Êxodo 19:5)

“De ADONAY é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam.” (Tehilim/Salmos 24:1)

A terra pertence ao Eterno. Se derivamos dela algum benefício, isso ocorre por permissão do Eterno.

A halakhá nos ensina a sempre que formos nos dirigir ao Eterno, entendermos que estamos diante de um rei soberano.

Você faria uso do objeto de um colega de trabalho sem pedir a ele permissão ou, no mínimo, comunicar que irá utilizá-lo?

Se dificilmente faríamos isso com um colega de trabalho, quem dirá com um rei. Faz-se necessário pedir permissão ao Eterno, e reconhecer que aquilo pertence a Ele, antes de nos beneficiarmos.

Ao bendizer algo antes de fazer uso, você reconhece a soberania do Eterno sobre toda a Sua criação, o que é extraordinariamente positivo.

V – Bênçãos sobre Mandamentos

A segunda categoria de bênçãos que temos é a sobre mandamentos. Geralmente, seguem a fórmula: “Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Elohim, Rei do Universo, que nos santificaste através de Teus mandamentos, e nos ordenaste…”

Nessa bênção, reconhecemos duas coisas: A primeira delas, é que o Eterno nos separou para uma aliança peculiar. Os mandamentos fazem parte dos termos dessa aliança. É a parte que compete a nós.

O que, portanto, santifica – isto é, separa – Israel é justamente a observância dos mandamentos da Torá.

E isso, o Eterno fez para o nosso próprio bem. Pois quando observamos a Torá, somos beneficiados, conforme é dito:

“O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência.” (Devarim/Deuteronômio 30:19)

“Felizes os retos em seus caminhos, que andam na Torá de ADONAY.” (Tehilim/Salmos 119:1)

Quando o Eterno nos deu a Torá, colocou adiante de nós um caminho de vida, de bênçãos, e de potencialidades fantásticas.

Ao cumprirmos os mandamentos, nos aproximamos dEle, somos recompensados, e ainda nos alinhamos com o propósito para o qual fomos criados. E tudo isso nos conduz a uma felicidade indescritível, que só quem observa a Torá conhece!

E é por isso que bendizemos a Ele por todas essas coisas. É como se um rei te convidasse a tomar parte numa atividade de sua corte e você, antes de fazê-lo, agradecesse a Ele pela oportunidade.

VI – Bênçãos de Agradecimento

E por falar em agradecimento, chegamos à última categoria: a de agradecimento. Seja agradecimento por algo que já recebemos, seja por algo que ainda almejamos receber, e assim agradecemos a atenção que o Rei do Universo dá às nossas petições.

Desde quando acordamos pela manhã, faz-se fundamental sermos gratos. Não à toa, a primeira coisa que o judeu diz ao acordar é:

“Em todos os momentos em que minha alma está dentro de mim, sou grato perante Ti” (trecho da bênção do despertar)

A alma, no hebraico נפש (nefesh), nada mais é do que a vitalidade. E a vitalidade só retorna a nós pela manhã, quando acordamos, por determinação do próprio Eterno. E, por isso, somos extremamente gratos.

Um coração grato perante o Criador é a chave para uma vida abençoada e feliz. Mais importante é ser grato, do que pedir.

E, mesmo quando derramamos perante Ele lágrimas e petições, agradecemos pelo simples fato de termos um canal para nos comunicarmos com Ele.

Como se pode observar, as bênçãos dentro do Judaísmo possuem inúmeros propósitos.

Longe de serem ritos mecânicos, são expressões extraordinárias de uma relação ao mesmo tempo próxima e íntima, mas também respeitosa e submissa, perante o Rei do Universo.

Claro, para que isso seja possível, é preciso compreender as motivações aqui expostas.

O autor espera que com este esclarecimento, mais pessoas possam se animar em fazerem as bênçãos diárias.

No Judaísmo, aquele que faz bênçãos regularmente, chega a fazer por volta de 100 bênçãos diárias. Cada qual realizada numa fração de segundos.

Trata-se de uma forma de estar o tempo todo ligado ao Criador, sem que isso seja um peso ou exija um grande desprendimento de tempo.

“Mas nós bendiremos a ADONAY, desde agora e para sempre. Halelu-Yah.” (Tehilim/Salmos 115:18)